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O BLUES

por Junior da Violla

 

 

INTRODUÇÃO - O Blues 

 

     O blues é mais do que um mero estilo musical. O blues é um sentimento, é uma manifestação pura do sentimento de um povo que recém liberto da escravidão clamava por igualdade, respeito e consideração. O blues nasceu do lamento dos negros norte americanos e carrega em si toda a dor e angústia pelo qual este povo passou nos anos de escravidão na América. Estilo simples, na gigantesca maioria das vezes com músicas que não ultrapassam 3 acordes, ornamentadas com solos em escala pentatônica, a mesma usada por chineses e indianos, mas com o acréscimo da "blue note", a nota que faz com que esta escala se torne bluseira, se torne negra. O blues na sua simplicidade se tornou a base de tudo o que foi produzido na música norte americana, do jazz ao rock, do funk ao pop. Neste trabalho pretendo apresentar o estilo, sua história, características, desmembramento em novos estilos e seus heróis que escreveram seus nomes ao som das blue notes.

 

 

O termo BLUES

 

     Edito Island, estado da Carolina do Sul, Estados Unidos, corria o ano de 1862. Em 14 de dezembro daquele ano uma negra nascida livre, que tinha estudado e se tornado professora escreveu em seu diário:

 

"Voltei da igreja com o blues. Joguei-me sobre meu leito e pela primeira vez, desde que cheguei aqui, me senti muito triste e muito miserável".

 

     É no diário da professora Charlotte Forten que aparece pela primeira vez o termo blues. Neste dia ela não define as relações eventuais do blues, ou nos da qualquer descrição do que seria aquilo. Porém alguns dias mais tarde, em 18 de Fevereiro de 1863 ela fala em seu diário da canção Poor Rosy:

 

"Uma das escravas me disse: Gosto de Poor Rosy mais do que qualquer outra canção, mas para cantá-la bem é preciso estar muito triste e com o espírito inquieto"

 

     Esta é a melhor definição do termo blues. A música Poor Rosy não era um blues mas sim uma balada, provavelmente o blues não existia ainda na época em que Charlotte estava em Edito Island, porém o termo "blues" com todas as suas conotações depressivas e de fossa ja fosse termo comum entre os negros.

     O termo blues é muito mais antigo. A expressão to look blue, no sentido de se estar sofrendo de medo, ansiedade, tristeza ou depressão ja era corrente em 1550. Na época pós elizabetana era costume na Inglaterra empregar o termo blue devils para designar espíritos malígnos. Em 1787 os blue devils passaram a simbolizar um estado de depressão emocional, enquanto a palavra blues aparecia em 1822 relacionada às alucinações provocadas pelo delirium tremens. Em um trecho de Salamangundi XI, do escritor americano Washigton Irving, datado de 1817 o termo aparece com esta conotação:

 

" Ele concluiu sua arenga com um suspiro e eu vi que ainda estava sob influência de toda uma legião dos blues"

 

     O próprio Thomas Jefferson escreveu em 1810:

 

"Nós somos assaltados às vezes por algo dos blue devils"

 

     Nos anos de 1830 e 1840 dizer que a pessoa tinha os blues significava que estava aborrecida, em 1860, época em que Charlotte descreve o blues em seu diário, significava infelicidade.

 

 

HISTÓRIA

 

     O blues nasceu dos cantos de trabalho nas plantações de algodão no delta do rio Mississipi na época da Guerra da Secessão americana. A música que os negros cantavam enquanto trabalhavam nas plantações aliviavam o trabalho pesado e davam ritmo ao mesmo, tornando o mesmo mais eficiente. Os negros dos EUA eram proibidos de usar  tambores por conta do Black Code aplicado pelos plantadores do sul. Com isso alguns dos instrumentos musicais usados pelos negros da época seria o banjor ( um ancestral do banjo ), o fiddle ( uma espécie de violino irlandês semelhante a nossa rabeca no Brasil ). Não há menção do violão na música americana desta época pois tal instrumento só faria sua aparição nos EUA no início do século XX, apesar de ja termos desde 1833 a fabricação deste por fábricas como a Martin.

     Além do canto de trabalho, denominado "work-songs", os plantadores escravagistas do sul resolveram evangelizar seus escravos, tornando o canto religioso um dos meios de expressão privilegiado do gênio africano. Com sua enorme capacidade de improvisação os negros transformaram os hinos batistas e metodistas em cantos que misturavam as origens africanas e européias e que se espalharam no mundo inteiro sob o nome de negro-spirituals. Somando-se a isso o fim da escravidão, a segregação racial muito forte, o nascimento de uma cultura negro-americana e de seitas religiosas negras como a igreja pentecostal que em algum lugar no final do século XIX, o fazendeiro solitário que dedilha seus hollers, o prisioneiros que perpetua os sotaques das work-songs do tempo da escravidão, o pregador que inflama as almas dos fiéis com a ajuda da sua guitarra, o pianista de casa de jogo que martela suas teclas para que a clientela dançasse e o cantor itinerante que dissemina suas baladas criaram o blues.

     A primeira fase do gênero é a do blues rural ou blues do delta que se desenvolveu na região do Mississipi e agrupava diversos estados como Mississipi, Arkansas, sul do Tennessee, Alabama e uma parte de Luisiana. Devido á segregação e ao racismo, os negros, que formavam a maioria da população, aí viveram em um estado de isolamento muito pronunciado, o que favoreceu o surgimento de uma cultura muito particular. O blues que surgiu nesta região possui uma forte influência africana: pouca melodia mas um ritmo sincopado, riffs repetitivos, canto veemente e tenso, frequentemente recitativo, com o uso frequente do falsete. A guitarra ja popular, é muito usada nesta primeira fase do blues, época em que ainda não havia surgido a guitarra elétrica. Com o violão usado em afinações abertas de sol ou ré, o uso do bottleneck ( um gargalo de vidro ) também é bastante popular. O blues do delta também se caracteriza por uma ausência aparente de lógica nas progressões dos versos e das métricas do fraseado. É bastante comum encontrar formulas de compassos em que uma parte esta a 4 tempos e outra a 5 logo a frente.

 

1) O blues do norte: classic blues singers

 

     O quadro começa a se alterar com a descoberta do blues pela indústria fonográfica. O rápido desenvolvimento do mercado de gramofones portáteis e portanto do mercado de discos após a Primeira Guerra Mundial, fez com que gravadoras como a Victor, Decca, Columbia, Paramount e Okeh que possuiam estúdios em algumas cidades do norte a tentar ampliar sua produção, até então reservada aos amantes da música erudita e popular. Chicago e o bairro negro do Harlem em Nova Iorque ja contavam com uma importante população negra nesta época, engrossada ainda pela economia de guerra. Algumas famílias ja instaladas há muito tempo formavam uma espécie de burguesia local que frequentava assiduamente os cabarés aonde se tocava os blues do sul, tocado ou cantado em contexto de jazz, afirmando sua urbanidade. Desta forma em 1920 o diretor de orquestra negro Perry Bradford, certo do público que tinha naquela região conseguiu convencer o produtor de discos Okeh Fred Hager a permitir que um negro gravasse em seu estúdio. E assim uma cantora popular do Harlen, Mamie Smith ( foto ) gravou o primeiro blues em disco, o clássico Crazy Blues que obviamente se tornou sucesso imediato, vendendo até 75 mil cópias por semana. Rapidamente outras empresas de disco viram a grande oportunidade de lucrar com o blues e uma infinidade de cantoras negras acompanhadas por orquestras de jazz, denominadas classic blues singers gravaram um sem número de blues. Isso fez com que as companhias criassem as race records, selos exclusivos para a comunidade negra. São algumas cantoras importantes desse período Bessie Smith, Gertrude Ma Rainey, Victoria Spivey, Ida Cox, Lucille Hegamin, EdithWilson, Rosa Handerson, Clara Smith, Sippie Wallace e Alberta Hunter.

 

2) O blues no delta do Mississipi

 

     A partir de 1925 o público do sul reclamava músicos que lhe fossem mais próximos, e com isso os músicos do blues do delta foram recrutados para entrar em estúdio e gravar. Estes sim foram os primeiros a gravar o autêntico blues de raíz, o blues que ja vinha sendo tocado no sul desde o final do século XIX e não o blues orquestrado e embalado para o consumo como o blues das cantoras do norte. O blues do delta se desenvolveu muito do seu surgimento até o início dos anos 30 graças ao intercâmbio de músicos itinerantes e de músicos de outras localidades como Texas, Oklahoma, Luisiana, Carolínas e Virgínias. Os primeiros músicos rurais a gravar fizeram-no através dos comerciantes que estocavam os discos das grandes companhias e as informavam de forma precisa sobre as vendas junto ao público negro além de conhecer bem os músicos locais. A partir de 1926 as vendas dos blues rurais ja fazia frente ás cantoras de orquestra. Foi assim que equipes de caça talentos percorreram o sul com estúdios portáteis gravando uma infinidade de músicos locais. Foram grandes nomes do blues do delta os músicos Charlie Patton, Tommy Johnson, Son House, Bukka White, Skipe James, Big Joe Willians, Tommy Mac Clennan e talvez aquele que seja considerado o maior de todos, Robert Johnson ( 1911-1938 ), considerado influência maior pelos garotos inglêses da década de 50 que viria a resgatar o blues do limbo. Dessa geração viriam nomes como Eric Clapton, Mick Jaegger, Keith Richards, Peter Green, John Mayall entre muitos outros.

 

3) O blues na costa leste

 

     Na costa leste, região que envolve os Apalaches ( Carolinas, Virgínias, Kentucky, Tennessee do Leste e Georgia ) desenvolveu-se um blues muito particular, muito mais leve que o dramático blues do delta, se bem que as estruturas sejam as mesmas, o ritmo sincopado do delta é substituído por efeitos regulares de baixos alternados, criando uma sensação de indolência e descontração, ainda afirmada pelo virtuosismo instrumental da maior parte dos músicos que criaram um estilo de tocar muito particular, o ragtime, cuja origem longíngua talvez provenha das Ilhas Caraíbas, que prolongam a Flórida. De qualquer forma parece que o racismo e a segregação tenham sido menos fortes que no delta, criando condições de vida mais leve aos negros, o que de fato se refletia em suas músicas. Esta tese poderia ser sustentada pelo fato de ser difícil de se diferenciar os estilos de músicos brancos como Sam Mac Gee ( Depot Blues ) dos músicos negros como Blind Blake. Com isso não é de se surpreender de encontrar um repertório comum a brancos e negros nesta região, contando frequentemente uma estória inspirada livremente na tradição da balada anglo-saxônica e cujo tema central é o amor desiludido. Os solos de violão são ótimos momentos em que o músico pode demonstrar seu virtuosismo. São grandes nomes do blues do leste músicos como Blind Blake, Blind Willie McTell, Reverendo Gary Davis, Blind Boy Fuller, Blind Lemon Jefferson, Texas Alexander, Leadbelly

 

4) O blues de New Orleans

 

     A música criada em New Orleans quase não apresenta semelhanças com o blues do delta ou do leste. Cidade aberta para para as Caraíbas e o México, a cidade acolheu muitos negros vindo do campo, com suas tradições musicais próprias, mas diluiu-os imediatamente em meio a uma rede de influências diversas: franco-acadiana, espanhola, creola, anglo-saxônica. Por outro lado este grande porto cosmopolita conheceu muito cedo a emergência de uma burguesia negra, opulenta e indulgente, que se reflete bem na tradição jazzistica da cidade. É um grande representantes do blues de New Orleans o músico Lonnie Johnson.

 

5) A eletrificação do blues

 

     Entre as duas grandes guerras mundiais houve uma maciça migração de negros das regiões rurais do sul para as grandes cidades. Essa migração foi bastante acentuada até a grande crise de 1929. Se alguns negros que se instalaram em cidades do norte conseguiram prosperar e ter empregos, a grande maioria só encontrou mais miséria, o amontoamento em guetos e uma outra forma de discriminação, que por ser tanto sócio econômica quanto de cor, não deixava de ser menos aviltante ou destruidora. Mas para esses novos migrantes, demonstrar seu fracasso era perder o prestígio perante aos seus que ficaram no sul. A idéia das grandes cidades do norte prósperas e acolhedoras para o negro se espalhou por todo o sul e Chicago por ser distante, e portanto menos autentificável, adquiriu uma significação mítica de um Éden imaginário. O blues não desapareceu nessa migração mas transformou-se ás novas realidades. Os temas passaram a tratar mais de amor e cada vez menos das condições de vida ou das relações sociais dos negros e para se fazer ouvir em meio aos bares e cabarés com mais gente, o solista passou a ceder vez á um conjunto. A guitarra que ja aspirava á eletrificação ganhou mais volume, primeiramente com violões dotados de ressonadores, como modelos feitos pelas marcas National ou Dobro, depois com o advento da eletrificação. Era a única maneira de se fazer ouvir junto a uma orquestra. Com o acompanhamento de outros instrumentos como bateria, piano e contrabaixo, o agora guitarrista tinha mais liberdade para improvisar solos de extremo virtuosismo técnico, modificando assim a linguagem do instrumento no blues. A forma do guitarrista tocar mudou muito do blues do delta para o blues eletrificado de Chicago, Memphis e Saint Louis.

 

6) O Memphis Blues

 

     O blues de Memphis emergiu entre os anos 20 e 30 e combinava influências do blues do delta com a necessidade de se fazer ouvir por um público não necessariamente atento, sendo assim necessário o uso de conjuntos ou bandas. O desenvolvimento de um blues orquestral teve como consequência imediata disciplinar a forma de tocar altamente irregular dos solistas vindo dos campos, em especial dos guitarristas que pouco a pouco vira-se obrigados a se enquadrar em um formato mais "quadrado", feita principalmente para a dança. São nomes importantes do blues do Memphis os músicos Frank Stokes, Memphis Jug Band, Furry Lewis, Memphis Minnie, Sleepy John Estes.

 

7 ) O blues de Saint Louis

 

     A cidade de Saint Louis, situada na intersecção do Mississipi com o Missouri, é um importante ponto de contato entre o norte e o sul. Com o fim da Primeira Guerra Mundial houve a aparição de uma importante população negra e de uma rápida industrialização. Foi palco de sangrentos tumultos raciais entre negros e brancos. Ali nasceu um blues muito particular. Música de cabaré e não de rua, o blues de Saint Louis se caracteriza pela afirmação do piano como instrumento dominante, fornecendo um apoio de bases rolantes ou ambulantes que permitiam ao guitarrista improvisar ao longo de uma linha melódica contínua, tocada nota por nota.

     Essa interação entre piano e guitarra teve grande influência no blues de Chicago. Isso aumentou ainda mais por que não haviam estúdios em Saint Louis, obrigando os músicos locais a gravar em Chicago, ali se hospedando, tocando ocasionalmente e em alguns casos ficando de vez. São nomes importantes do blues de Saint Louis os músicos Roosevelt Sykers, Walter Davis, Peetie Wheatstraw, Leroy Carr.

 

8) o blues de Chicago

 

     A cidade de Chicago foi durante muito tempo, junto de Nova Iorque, os dois únicos lugares aonde se encontravam estúdios de gravação de boa qualidade técnica, com isso músicos de diversas regiões vinham para a cidade gravar e não raro resolviam ficar de vez. Estes músicos, tanto os que voltavam como os que ficavam rentabilizavam suas viagens se apresentando nos clubes da cidade, ficando as vezes tempo suficiente para influenciar o blues do local. Tudo isso explica a solidez da tradição do blues de Chicago, ao ponto da cidade identificar-se atualmente de forma pouco abusiva com a noção de blues. Essa abertura permanente explica também a constante evolução que esse gênero conheceu ali. Só no período entre guerras podemos distinguir pelo menos dois estilos de blues que viveram em paralelo mas se influenciando mutualmente.

     O blues neo-clássico é marcado por um estilo leve, sofisticado e amplamente influênciado pela música popular da época e os espetáculos de vaueville. O público negro de Chicago abandonou de forma bem rápida esse blues neo clássico em favor de um novo estilo de música mais próxima da tradição do blues do sul, mas retendo  um forte toque urbano, marcado pela presença de uma seção rítmica, geralmente bateria e contrabaixo, devolvendo o papel de primeiro plano ao piano e com as improvisações dos solistas mais próximas do jazz. A este blues denominou-se de bluebirds blues. São nomes dessa corrente os bluesmens Washboard Sam, Big Bill Broonzy, Jazz Gillum, John Lee Sonny Boy Williamson, Big Maceo.

     A Segunda Guerra Mundial colocou negros e brancos lado a lado nas batalhas. Isso fez com que ao final do conflito os negros do sul não aceitasse voltar ás velhas condições de submissão social, segregação e racismo. Isso criou uma nova leva de negros rumo ao norte. Foi a partir dessa época, 1945 que a guitarra elétrica se tornou quase regra geral no blues, apesar que desde meados da década de 30 ja havíamos gravações de blues com guitarras elétricas. O advento da eletrificação permitiu aos artistas uma multiplicação de efeitos e sonoridades jamais vistas até então tornando as possibilidades do novo instrumento quase infinitas. A guitarra aos poucos relegou ao piano o papel de segundo plano. Além da guitarra, a gaita também se impôs como instrumento dominante do blues orquestral. A eletrificação deu ao blues uma segunda juventude. E assim este novo blues do pós guerra foi captado por uma multidão de pequenos produtores que na mesma proporção criaram marcas registradas das quais algumas se tornaram grandes companhias como os irmãos Chess em Chicago e Sam Phillips ( que em 1954 descobriu Elvis Presley ) em Memphis. São grandes nomes do blues de Chicago do pós guerra B. B. King, Howlin' Wolf, Elmore James, Sonny Boy Williamson II, Junior Parker, Muddy Waters, Little Walter, Willie Dixon, Jimmy Reed, Otis Rush, Magic Sam, Buddy Guy 

 

9) O blues de Detroit

 

     Um blues local emergiu em Detroit a partir dos anos 20 ao redor do bairro negro e das tabernas de Hastings Street mas a ausência de produtores e de estúdio, como outras regiões obrigou os músicos locais a migrarem para Chicago. A reativação do blues neste local se deu após a Segunda Guerra Mundial quando um grande fluxo de negros desembarcou na cidade para trabalhar nas fábricas de automóveis da região. Mas ao contrário de Chicago, a produção de discos de blues nesta região ficou a cargo de pequenos produtores, com estúdios de má qualidade. O único representante desse blues que venceu as barreiras da região é o bluesman John Lee Hooker.

 

10) O blues do Texas

 

     Enquanto os blues rurais do delta e da costa leste praticamente cessaram de ser explorados comercialmente em sua forma inicial depois da guerra, o blues do Texas conseguiu conhecer um novo impulso: a guitarra de baixos apoiados e de arpejos de Blind Lemon Jefferson e seus sucessores que se adaptavam bem á amplificação elétrica e que até mesmo sublinhava melhor todas as sutis inflexões desse toque econômico. Uma vez mais o Texas e os estados vizinhos retiveram por mais tempo que as outras regiões as antigas tradições do blues. São grandes nomes desse gênero Lightnin' Holpkins, Lil' son Jackson, Smokey Hogg, Frankie Lee Sims

 

11) O blues da Califórnia

 

     A ocupação negra na Califórnia se deu a partir da década de 40, até ali havia apenas uma população bem reduzida de negros. A indústria trouxe negros para Oakland e Los Angeles. A influência do blues do Texas era mais viva e a partir de 1948, 1950 foram traçadas as grandes linhas desse estilo californiano: proeminência da guitarra elétrica como instrumento solista mas no meio de um importante conjunto musical compreendendo uma forte linha de metais á maneira das grandes orquestras de swing de Kansas City, uma presença forte do piano e sobretudo a adaptação sutil da tradição texana ( o guitarrista mantém o toque em arpejos mas suprime os efeitos de baixo, doravante assegurados pela orquestra ). A linha melódica se desenvolveu de modo contínuo: de alguma forma, Blind Lemon Jefferson revisto por Lonnie Johnson, cuja influência  indireta sobre esse blues é inegável. Apesar de suas origens rurais, esse blues da Califórnia é uma música extremamente urbana e sofisticada

     Em torno de Los Angeles a música negra tomou um caráter mais elaborado. Ainda ai a influência das grandes correntes de Kansas City foi importante, da mesma forma que, apesar das aparências, a da tradição pianística texana, profundamente amenizada e urbanizada, é claro. Todavia, a influência dominante desse blues da Califórnia do Sul parece ter sido o pianista e cantor de jazz e de baladas Nat King Cole. Grandes nomes do blues da Califórnia são Charles Brown, T-Bone Walker

( foto), Lowell Fulson, Roy Milton, Lafayette Thomas, Johnny Heartsman, Jimmy Mac Cracklin, Lloyd Glenn, Cecil Gant, Jimmy Wilson.

 

12) A emergência do rhythm and blues

 

     O pós guerra viu surgir em New Orleans um estilo de blues profundamente original, fazendo empréstimos de múltiplas tradições dessa cidade, ás quais é preciso adcionar a influência californiana e das orquestras de Kansas City e também o surgimento de novos estúdios de gravação de qualidade. Este estilo de New Orleans se caracteriza  pela predominância de peças rápidas saídas do boogie-woogie e de baladas sentimentais, com um mínimo de blues lento. Se conforme a rica tradição da cidade nesse campo, o piano continuou  a ser em geral o instrumento dominante, se apoiando em uma linha dupla de baixos criada pela guitarra elétrica e do contrabaixo, assim como uma importante linha de metais onde frequentemente emergiam solistas. Assistiu-se igualmente a uma extensa utilização de formas rítmicas tomadas de empréstimo á tradição local ( rumba, cajun, calipso, dixeland ), que não eram encontradas em nenhum outro lugar. Adcionamos á mistura a potência vocal de cantores que deviam dominar a orquestra e cantar seu blues de forma desenfreada, cheia de bom humor, animação, de alegria de viver, que contrasta em muito o blues de Mississipi ou de Chicago. O termo rhythm and blues substituiu o termo race records das prateleiras das lojas de discos e é praticamente o rock'n roll só que cantado por negros, antes de ser interpretada por artistas brancos como Elvis Presley, na verdade eram a mesma música, o rhythm and blues interpretado por negros e o rock 'n roll interpretado pelos brancos. Os grandes nomes desse estilo são Fats Domino, Big Joe Turner, Little Richards.

 

13) O rock 'n roll

 

     A explosão do rhythm and blues negro fez com que os artistas brancos também se dedicasse ao gênero pois era notória a audiência branca nas rádios que se dedicavam ao rhythm and blues. Brancos tocando música negra é algo que acontecia desde sempre, a primeira partitura impressa de blues de 1913, o famoso St. Louis Blues foi editada por um branco, W. C. Handy. Nos anos 30 várias orquestras de jazz brancas também tocavam temas criados por negros. Se o blues  mais étnico era incompreensível para os brancos do norte, suas formas  mais sofisticadas foram objetos de adaptações  de artistas brancos que buscavam ali o essencial de sua inspiração. As hit parades eram formadas em duas sessões: o rhythm and blues aonde figuravam artistas negros e o popular aonde apareciam os brancos.

     A influência do blues foi determinante na música branca do sul. A country music, considerada a expressão branca da música sulista foi desde sua origem inspirada no blues. Os músicos da country music tomaram empréstimo constante á música negra para fazer evoluir sua arte em formas sucessivas, entre as quais o rockabilly, antes de fundir-se no rock 'n roll, sendo esta uma das últimas e mais significativas. Para atrair os adolescentes brancos que se sentiam atraídos pelo blues eletrificado boa parte dos músicos country passaram a eletrificar seus instrumentos e acelerar suas peças tomando cada vez mais empréstimos do boogie woogie e do rhythm and blues. Muitos jovens brancos atraídos pela música negra, na forma de cantar se contorcendo no palco, nos falsetes e nos trejeitos, causaram imensa inquietação na sociedade branca da época que tentava a todo custo banir este tipo de música das rádios. Com o problema racial existente e ainda latente á época a solução encontrada foi nomear a música feita pelos brancos como um novo gênero musical. Surgia o rock 'n roll nas mãos de nomes como Bill Halley and his Comets e Elvis Presley. Mesmo assim isso não freou a crescente popularidades dos artistas negros de rhythm and blues. E pela primeira vez, igualmente, uma música do sul, o rock 'n roll ( branco e negro ) tornava-se popular entre brancos do norte. Daí para dominar a América e chegar á Europa foi um pulo que já em 1957, 58 começava a sentir os efeitos do novo gênero com o blues a tiracolo.

 

14) O blues na Europa 

 

     No período entre as duas guerras o blues só era conhecido na Europa pelos amantes de jazz. Muito raramente algum músico de blues desembarcava no velho continente para alguma apresentação. A onda do rock 'n roll atingiu primeiramente a Inglaterra, antes do resto do continente, suscitando aqui e acolá uma geração inteira de jovens adolescentes que na década seguinte continuaria a mudança iniciada pelos pioneiros do rock. A vinda para a Europa de nomes como Fats Domino, Little Richards ou Chuck Berry suscitava cada vez mais interrogações sobre as fontes dessa música tão excitante. Foi assim que turnês de bluesmen que se sucederam, inicialmente de forma esporádica e depois de forma frequente drenaram um importante público de jovens que não queriam saber de barreiras e que consideravam o rock e o blues parte do mesmo pacote.

     Inúmeros grupos de rock e depois de blues surgiram: Animals, Yardbirds, Groundhogs, T-Bones, Bluesbreakers, Moody Blues e a maior de todas, os Rolling Stones. Dessas bandas surgiram verdadeiros virtuoses da guitarra blues, alguns até melhores que muitos dos grandes mestres da guitarra blues americana como Eric Clapton ( foto acima ), talvez junto com B.B. King o grande responsável pela ( re ) popularização do blues após os anos 60, Peter Green, Jimmy Page, Jeff Beck, Rory Gallagher entre inúmeros outros. Muitos artistas da antiga foram tirados do limbo graças ao reinventar do blues pelos artistas brancos ingleses. É o caso de músicos como Leadbelly, Son House e Sonny Boy Williamson ( este último chegou a gravar um álbum com os Yardbirds da era Clapton ) que tiveram excursões pela Inglaterra.

     Eric Clapton foi o maior nome do blues inglês. Iniciou sua carreira na banda Yardbirds, depois com apenas 21 anos saiu para gravar com a banda Bluesbreakers um disco antológico, considerado um dos maiores discos de blues da história: o álbum John Mayall ande the Bluesbreakers with Eric Clapton lançado em 1966. Neste mesmo ano se uniu ao baixista Jack Bruce e ao baterista Ginger Baker, ambos músicos de jazz para criar a banda Cream que praticamente criou o blues rock. Clássicos de blues eram levados ao extremo do experimentalismo, com solos inflamados de Clapton apoiados nas levadas jazzisticas de seus dois companheiros de banda. Depois do Cream Clapton passou por diversas bandas como Blind Faith e Derek and The Dominoes até culminar em uma muito bem sucedida carreira solo, sempre levando o blues consigo. Em 1994 gravou um disco somente clássicos de blues, o álbum From the Cadle.

 

15) O blues hoje

 

     A partir da entrada dos músicos ingleses no blues e com a invasão britânica no mercado americano e por tabela, no mercado fonográfico mundial, o blues ganhou uma projeção jamais vista. Podemos encontrar o blues em todos os lugares do mundo e ano a ano novos talentos do instrumento aparecem. Tivemos gigantescas excursões mundiais de nomes como B. B. King. Buddy Guy e Eric Clapton. Depois dos anos 60 vimos grandes bandas e artistas de blues surgirem como o texano Steve Ray Vaughan ( foto ), considerado talvez o maior nome do blues depois dos anos 60 que faleceu em um acidente de helicóptero em 1990 ou o jovem Kenny Whayne Shepherd que brilhou no final dos anos 90 e ainda esta em atividade. Ainda se cultua o blues rural do delta e há vários nomes que podemos citar como Toby Walker ou Stovepipe Daddy. O youtube tem sido uma ferramenta muito eficaz pois podemos conhecer nomes do blues de diversas regiões dos EUA assim como rever antigos clássicos de nomes do passado ja muito distante, gravações dos anos 20 e 30, a qual não tínhamos acesso há 15 anos atrás.

 

 

CONCLUSÃO

 

     Universalmente aceito e reconhecido em toda parte como uma fonte maior de influência da música popular contemporânea, ativando novas vocações no mundo inteiro, o blues deixou de ser verdadeiramente popular entre o povo negro americano que o criou.

     Esse paradoxo, entretanto, só é surpreendente na aparência. De fato, como acreditamos ter demonstrado, o blues foi antes de mais nada a expressão artística principal dos negros americanos durante uma fase de sua história: a que vai  do fim da escravidão á emancipação no seio da sociedade americana.

     Rejeitados, humilhados, desprezados, desvalorizados e as vezes fisicamente perseguidos, os negros, iletrados e ainda por cima sem passado histórico visível ao qual se ligar, exprimiram-se de forma completa pelo blues, que foi sem dúvida o último gênero musical que se pode verdadeiramente qualificar de étnico a aparecer no mundo dos homens. A partir do instante em que, por sua coragem e sua força, os negros obtiveram o reconhecimento de sua identidade, fizeram-se respeitar e conquistaram um lugar essencial na sociedade americana, o blues não mais pareceu necessário.

     É claro que o blues ainda existe. Inúmeros músicos negros cresceram em sua companhia a ele sempre se referem de uma forma ou de outra. Mas, para as jovens gerações, o blues é só uma tradição muito difícil de ser conservada e que remete ás horas mais sombrias e menos exaltantes da história de seu país. É infinitamente provável que a geração de músicos de blues nascidos nos anos 30 seja a última a se exprimir integral e originalmente neste idioma. Os que seguem ou seguirão fazem seu aprendizado do blues através de discos e concertos e não mais, felizmente, através da segregação, da miséria e da humilhação. Eles escolhem o blues para exprimir-se entre outras formas musicais, e raramente o praticam com exclusividade. Qualquer que seja o seu futuro, o blues jamais voltará a ser o que foi.

     Mas o blues, pela potência emocional e pela profundidade dos sentimentos que exprime, remete ao essencial da alma humana. Somente os indivíduos e os povos que realmente conheceram um enorme grau de sofrimento são capazes de atingir essa verdade interior que os outros só conseguem entrever.. Se por um lado conseguem superar o rancor e  o desespero, adquirirão cedo ou tarde uma linguagem cuja força moral e emocional conseguirá fazer vibrar essa trama fundamental de sangue, suor, lágrimas, desejos e frustrações que esta em todo ser humano.

     O blues é uma dessas linguagens. Ele esta impregnado do longo calvário do povo negro em terra branca e se suas blue notes e seus 12 compassos ressoam até hoje em dia em todos os lugares do mundo, é porque a mensagem desse doloroso itinerário foi ao menos parcialmente ouvida e compreendida.

 

BIBLIOGRAFIA

 

1) BLUES - Da Lama á Fama, Roberto Muggiati, 4ª edição, Editora 34, 1995

 

2) BLUES, Gérard Herzhaft, Papirus Editora, 1989

 

3) GUITARRA BLUES - do Tradicional ao Moderno, Marcos Ottaviano, Melody Editora, 2010

 

4) CROSSROADS - A Vida e a Música de Eric Clapton, Michael Schumacher, Editora Record, 1995

 

5) ERIC CLAPTON - A Autobiografia, Editora Planeta, 2007

 

6) http://www.descomplicandoamusica.com/escala-blues-blue-note/